Atrativo para visitantes, monumento com Santa no Morro Cerrito acabou abandonado

Rian Lacerda e Vitória Sarturi

Atrativo para visitantes, monumento com Santa no Morro Cerrito acabou abandonado

Foto: Rian Lacerda (Diário)

Quem sobe o morro do Bairro Cerrito, na Rua Pedro Parcianello, se depara com uma vista privilegiada de Santa Maria. No passado, o ponto reunia visitantes que buscavam o local para tomar chimarrão, observar o pôr do sol e contemplar o monumento de Nossa Senhora das Graças. Hoje, no entanto, o endereço passa quase despercebido pelo abandono e a vegetação alta. 


O mirante

O caminho para acessar o mirante exige cruzar a porteira de uma propriedade privada e encarar uma rua em curvas, calçada com paralelepípedos. Ao final da via, uma rampa leva ao topo do morro, localizado na região sul do município. 

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Embora o espaço não fosse formalmente aberto ao público, a calmaria e a vista panorâmica faziam do local um ponto comum de visitas aos finais de semana. Fiéis e moradores subiam o morro para momentos de oração, caminhadas de Via Sacra ou para a tradicional colheita de macela na Sexta-feira Santa. O mirante abrigava uma estrutura completa: além da imagem monumental que abençoava a cidade, o espaço contava com iluminação por holofotes, bancos para descanso e um gramado que contrastava com a mata nativa ao redor.

As moradoras, Lenir Brondani, 67 anos, e Verônica Brondani,  37, mãe e filha, respectivamente, acompanharam o começo e o declínio do local. 

Lenir Brondani, de 67 anos, costureira e moradora do Bairro Cerrito desde 1995Foto: Vitória Sarturi (Diário)

– Nós viemos para cá em 1995 e já tinha o monumento. O pessoal ia nos domingos, nos feriados, no verão sempre tinha gente. Era uma estradinha toda calçada, com árvores. Nós subíamos lá no final de semana para tomar chimarrão – relata a costureira Lenir

A imponência do monumento era tanta que, segundo moradores, a imagem podia ser vista até mesmo do centro da cidade – quem estivesse no 10º andar do Complexo Hospitalar Astrogildo de Azevedo, na Rua José Bonifácio, conseguia contemplar a silhueta da Santa no horizonte do Cerrito.


A história: um sonho de família

A construção remonta ao início da década de 1990, fruto de um desejo de Edith Mariano da Rocha, irmã de José Mariano da Rocha Filho, fundador da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – já falecidos. Mais do que um marco geográfico, a obra era o cumprimento de uma promessa: Edith desejava realizar o sonho de sua mãe, Maria Clara Marques Álvares da Cunha, que vislumbrava uma imagem de Nossa Senhora voltada para o município, protegendo a cidade do alto do morro que levava o nome da família: Mariano da Rocha. 

Foto: Arquivo Pessoal

Para tornar o sonho realidade, Edith destinou recursos próprios para a pavimentação da estrada de acesso e para a edificação do espaço. Em 1993, no mesmo ano em que a obra foi concluída, a proprietária oficializou a doação da área de 12 hectares à Associação Tabor, do Movimento de Schoenstatt, que permanece como responsável pelo terreno até hoje. As informações foram confirmadas ao Diário pelo sobrinho de Edith e filho de Mariano da Rocha, Antonio Manoel Mariano da Rocha, 64 anos. 


A estrutura

Foto: Rian Lacerda (Diário)

A estrutura foi planejada com um rigor técnico e religioso coordenado pela Irmã Senira Catharina Biscaro, das Irmãs de Maria de Schoenstatt, e executada pelo construtor Casemiro Bozan – ambos já falecidos. Cada detalhe do monumento carregava um significado espiritual:

  • O Totem: A coluna que sustentava a imagem possuía 10 metros de altura, número considerado de perfeição bíblica.
  • Os Mistérios: Ao redor da base de concreto, relevos detalhados simbolizavam os 15 mistérios do Rosário. A escolha era uma homenagem ao venerável João Pozzobon, de quem Edith era devota fervorosa.
  • A Imagem: No topo, a estátua da Imaculada Conceição — padroeira da Arquidiocese — média 3,5 metros, totalizando uma estrutura imponente que podia ser vista de diversos pontos da cidade, especialmente à noite, quando era iluminada.


A origem da imagem

O arquivista e doutorando em História pela UFSM, Jean Carlo Rosa Durigon, 30 anos, que pesquisa patrimônio eclesial e a história da Igreja Católica, visitou o monumento em Santa Maria durante sua infância. Ao Diário, ele explicou que a imagem de Maria, com as mãos estendidas, remete à aparição francesa em que manifesta o fenômeno celeste.


O desfecho 

O cenário atual é marcado pelo mato alto – que tomou conta do espaço. A base de concreto do monumento, que centralizava as atenções, está coberta por pichações. Os bancos, a iluminação e as grades de proteção, que davam suporte aos visitantes, foram furtadas e não existem mais no local. 

Foto: Rian Lacerda (Diário)

Lenir relata que o espaço começou a registrar aglomerações e descarte irregular de lixo, intensificando o abandono após a saída de um vizinho que cuidava da chave do terreno.

– Com o tempo, o espaço ficou atirado. Começaram a fazer bagunça. Depois, os vizinhos largaram cavalos ali também. Ninguém dá bola para nada. Pessoas ainda vão ali, ficam motos e carros parados na entrada da estrada – detalha Lenir.

A degradação física do espaço selou o destino da imagem: em 2023, durante um temporal, a estátua não resistiu. Registros fotográficos feitos por vizinhos na época mostram a estrutura tombada para trás, sustentada apenas pela armação de ferro.

Em uma última tentativa de salvamento, a imagem foi recolhida por um integrante do Movimento de Schoenstatt, que pretendia restaurá-la em sua oficina particular. Contudo, o artesão faleceu antes de concluir os reparos. A imagem permaneceu guardada em um depósito por anos até que, após análises técnicas, constatou-se que os danos estruturais eram irreversíveis e ela foi descartada.Restam, agora, apenas as memórias e o terreno vazio.


O futuro

O futuro do monumento repousa na reestruturação da Associação Tabor, que busca regularizar sua situação jurídica para dar um novo destino à área. Membro da entidade, Thomé Lovato, 67 anos, revelou que o desejo de honrar o sonho de Edith e sua mãe permanece vivo. 

Foto: Rian Lacerda (Diário)

O plano agora envolve a captação de recursos e parcerias com empresários e com a Arquidiocese de Santa Maria para a construção de uma nova estátua, possivelmente com dimensões ainda maiores para garantir visibilidade em meio ao crescimento da vegetação nativa.

Entretanto, para que a Imaculada volte a observar a cidade do alto do morro, os desafios vão além da engenharia. O projeto futuro precisa contemplar um sistema de segurança robusto e cercamento eletrônico, visando coibir o vandalismo que marcou os últimos anos.

Entre as alternativas em estudo para viabilizar a manutenção do local, está a possibilidade de criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) ou até mesmo um condomínio sustentável, que permitiria o acesso controlado de visitantes e garantiria a preservação deste patrimônio histórico e espiritual de Santa Maria.


O que diz a Arquidiocese

Em nota, a Arquidiocese de Santa Maria comunicou que, embora ainda não exista uma formalização sobre o projeto de reconstrução, mantém seus canais de comunicação abertos à comunidade. A instituição reafirma, ainda, sua constante disposição para o diálogo sobre o futuro do monumento.


O que diz a prefeitura

Por meio de nota, enviada via assessoria de imprensa,Conforme o cadastro técnico imobiliário, o mesmo está localizado em imóvel cadastrado em nome de proprietário particular.

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